quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Resultado do Concurso Cultural A livraria 24 horas do Mr. Penumbra

Eu tinha prometido o resultado antes de hoje, mas nem sempre a vida segue a linha que a gente quer, né?

A pergunta tinha sido: "Com a tecnologia transformando tudo em efêmero e com prazo de validade, qual o segredo da imortalidade?"

E, na minha opinião, a melhor resposta foi a do André Carvalho que abordou diversos aspectos importantes e que envolviam o questionamento, estou entrando em contato com o ganhador hoje (para que as regras sejam todas cumpridas de ambas as partes) e em breve tem promoção nova por aqui!

Beijos e agradeço as pessoas que participaram.

A RESPOSTA:


Não há prazos de validade...

"Tecnologia" X "perpetuação de determinada experiência", é uma falsa oposição. Os clássicos, por exemplo, sobrevivem, apesar das mudanças nos aparatos tecnológicos. O que vemos, na verdade, é uma reconfiguração de seus usos: um Victor Hugo, por exemplo, passou por centenas de edições, por mudanças no seus suportes, digitalizou-se (virou PDF, e-book), virou musical, cinema, novela, etc. Ou seja, a experiência desse clássico não se tornou efêmera por causa da tecnologia, mas se perpetuou de diversas formas.

De tempos em tempos os discursos apocalípticos, que anunciam o fim de determinada mídia, surgem e parecem fazer todo sentido. Mas a história nos mostra que uma mídia nova nunca acaba com a outra. O que acontece na verdade, são mudanças no suporte, pois o que define que determinado conteúdo é um livro, ou um gibi, não é o tipo de impressão, não é a tecnologia, mas a experiência que temos ao usar aquele produto. Por exemplo: podemos ter a experiência de estar lendo um livro, ou um romance, tanto na biblioteca, quando num e-book, etc

Claro que as mudanças tecnológicas, de certa maneira, influenciam a forma como vamos ter a experiência daquela mídia - a TV digital, por exemplo, vai continuar nos dando a experiência de televisão, mesmo assim, alguns elementos de como nos relacionamos com a TV podem mudar.

Sendo assim, o que define um livro não é o papel ou o seu suporte, mas a forma como você se relaciona com ele.

Agora, discutindo de maneira mais direta a questão do aparato tecnológico que você mencionou, podemos observar hoje a "sobrevivência" de muitos suportes que foram anunciados em extinção há muito tempo: rádio, jornais, toca disco, toca fita, máquina de escrever, etc. Acontece que o ser humano parece manter uma relação não só com a experiência daquele conteúdo - como escrever, por exemplo - mas também com a sua tecnologia. É como um fetiche, que você preserva, porque significa alguma coisa pra você. E por esse motivo, nós ainda vemos por aí, objetos que foram dados como mortos há muito tempo:http://mundoestranho.abril.com.br/...

Como você pode ver na matéria da mundo estranho, há uma dimensão muito importante nisso tudo que é a dimensão do consumo. Quando determinada tecnologia, ou informação, nos permite determinada experiência, ela não morre na história, mas se transforma e se perpetua de maneiras diferentes. E o sistema capitalista parece se aproveitar muito bem disso, absorvendo os nichos de mercado que aquele tipo de aparato permite. Ou seja, podemos ver emergir no mercado, a volta de produtos como máquinas de escrever, vinil, toca fitas, toca disco, etc.

Podemos dizer que isso tudo, em última instância, nos dá uma lição sobre o tempo: o tempo nos conta que a história não é feita de mortes, mas de sobrevivências, misturas, hibridações. Sendo assim, desconfie de todo discurso que anuncia o fim de algo, os discursos "apocalípticos". O tempo não funciona como uma linha reta, mas funciona muito mais como um espiral, em que algo que esteve no passado parece estar muito próximo do presente, sem ser enterrado.


Finalmente, acredito que a imortalidade não tem segredo nenhum. A perpetuação de alguma coisa, se dá quando o ser humano passa a ter uma relação, uma experiência com aquilo. Os clássicos sobrevivem porque eles foram amados um dia, e continuam sendo, de maneiras diferentes, fazendo novos usos, novas formas de senti-los. Alguém que amou "100 anos de solidão" quando foi publicado pela primeira vez, pode ter uma experiência decididamente diferente do que eu, recentemente. No entanto, ambos estavam amando. Quando um clássico, uma mídia, algo surge na humanidade e reconfigura a forma como nos relacionamos com aquilo, é porque uma fratura no tempo foi aberta, e novas possibilidades, a partir daquilo, acontecerão. O que imortaliza essas coisas, é portanto, a relação que os seres humanos estabelecem com aquilo. Ou para ser mais poético: o que imortaliza nossa relação com um clássico, é o amor.

Um comentário:

  1. Eu até vi essa resposta lá, achei que nenhuma iria conseguir competir com ele =/ faz parte. Boa leitura para ele!!!

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Obrigada!